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27/01/2015
Candidatos na instituição em que prestaram o Enem Em 2014, mais de 8% dos candidatos tiraram nota zero na redação, que teve como tema a Publicidade Infanti
O tema da redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) de 2014 causou bastante polêmica. Para a maioria dos candidatos, a Publicidade Infantil foi um assunto muito difícil de discorrer. Para outros, no entanto, o tema foi relativamente fácil. Para os que se saíram bem, o segredo foi acompanhar - através de jornais - os assuntos de interesse público e ler bastante. Com isso, mais uma vez ficou clara a importância de dois fatores primordiais não só para o bom desempenho em provas, mas para o sucesso profissional: manter-se informado e possuir o hábito de leitura.
Dos 6.193.565 candidatos que fizeram o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2014, 529.374 participantes tiveram nota zero na redação (8,5%), segundo dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). Apenas 250 obtiveram a nota máxima (1.000) na redação e 35.719 inscritos tiveram notas entre 901 e 999. Ao todo, 248.471 redações foram anuladas.
A nota da redação é zerada quando: o texto possui desenhos ou informações desconexas; o candidato deixa a prova em branco ou escreve menos de sete linhas; o participante desrespeita os Direitos Humanos; ou não segue o tipo de texto exigido: dissertativo-argumentativo.
Avaliação
Na correção é avaliado se o candidato atendeu às cinco competências: demonstrar domínio da norma padrão da língua escrita; compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo; selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista; demonstrar conhecimento dos mecanismos lingüísticos necessários à construção da argumentação; e elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.
Cada redação do Enem é corrigida por dois corretores de forma independente. A nota total de cada corretor corresponde à soma das notas atribuídas a cada uma das cinco competências.
Se houver discrepância entre as notas dos dois corretores por mais de 100 pontos, ou se a diferença de suas notas em qualquer uma das competências fosse superior a 80 pontos, a redação vai para um terceiro corretor.
Caso houver discrepância entre o terceiro corretor e os outros dois corretores, ou caso houver discrepância entre o terceiro corretor e apenas um dos corretores, a nota final é a média aritmética entre as duas notas totais que mais se aproximaram.
O tema
A discussão sobre publicidade infantil surgiu porque em abril do ano passado foi publicada a resolução 163 (aprovada por unanimidade) do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, órgão ligado à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, que apontou que é considerado como abusivo o direcionamento de publicidade e comunicação mercadológica a crianças.
Assim, entendeu-se que a propaganda não pode incentivar a criança a consumir um produto ou serviço usando “linguagem infantil, efeitos especiais, excesso de cores, trilhas sonoras de músicas infantis ou cantadas por vozes de criança, representação de criança, pessoas ou celebridades com apelo ao público infantil, personagens ou apresentadores infantis, desenho animado ou de animação, bonecos ou similares, promoção com distribuição de prêmios ou de brindes colecionáveis ou com apelos ao público infantil e promoção com competições ou jogos com apelo ao público infantil”.
Desta forma, a norma protege as crianças, que ainda não estão preparadas para fazer escolhas sozinhas e podem ser facilmente influenciadas pela publicidade, por terem pouca capacidade de diferenciar realidade e ficção e de perceber os objetivos da publicidade.
Leitura e informação
O mau desempenho dos candidatos na redação demonstra que o jovem não tem lido nem se mantido informado. O tema da redação, “Publicidade Infantil”, não foi amplamente debatido pela mídia como o tema do ano anterior, “Lei Seca”.
No entanto, o assunto esteve presente nos mais diversos jornais, impressos, eletrônicos e televisivos, quando a medida foi aprovada, em abril de 2014. Se os candidatos tivessem o hábito de acompanhar regularmente os jornais, certamente saberiam escrever sobre o assunto.
A leitura também é fundamental para uma boa redação. Além de ser um meio eficaz de se manter informado, esse hábito auxilia as pessoas a escrever com coerência, coesão e dentro da norma culta da língua portuguesa, fatores primordiais para um bom texto.
Conseqüências
Para vários especialistas, as conseqüências da norma tendem a ser bastante positivas, uma vez que podem conter o consumismo exacerbado e crescente na sociedade e ainda reduzir a obesidade infantil. A resolução se restringe a produtos e serviços com intenções mercadológicas, não abrangendo campanhas informativas e de utilidade pública.
A Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) já havia apresentado, em 2012, um documento para regular a promoção e publicidade de alimentos e bebidas não-alcoólicas para crianças nas Américas.
Vários países têm implantado restrições nesse campo. Canadá, Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Noruega, Irlanda, Bélgica, Áustria, Grécia, entre outros, possuem normatizações específicas sobre a publicidade dirigida à infância. Outra referência importante é a legislação da Suécia, que proíbe qualquer tipo de publicidade na televisão dirigida a pessoas com menos de 12 anos antes das 21h.
Como saber se o seu filho se tornou um consumista?
Um sinal de que a criança está seguindo pelo caminho do consumismo compulsivo é de querer absolutamente tudo o que vê na televisão ou vitrines ou o que os amigos têm e, quando não ganham, fazem birra. Toda criança acaba sendo influenciada, mas alguns comportamentos são muito atípicos.
Se os pequenos ganham algo e logo quebram ou deixam de lado, não querendo mais brincar, ou quando recebem mesada e dificilmente conseguem passar o mês todo com aquele valor, também podem ser indícios. Os pais ou responsáveis precisam ficar atentos, observar de perto e, caso esteja acontecendo, devem repensar a educação de seus filhos sobre o assunto, revendo seu próprio nível de letramento financeiro.
Além disso, podem – e devem – limitar ou controlar o acesso das crianças às mensagens publicitárias e conversar sempre com eles. É importante lembrar que se os hábitos e costumes da família forem positivos em relação ao uso do dinheiro, isso tenderá a prevalecer na vida das crianças.
Entenda os dois lados da polêmica sobre o assunto
Para Ekaterine Karageorgiadis, advogada do Instituto Alana, dedicado a garantir condições para a vivência plena da infância, a decisão do Conanda é baseada na Constituição, na qual a propaganda infantil é classificada como abusiva e, portanto, ilegal.
Para Karageorgiadis, o problema é que a fiscalização do material televisivo, impresso e radiofônico não é eficiente. “Justamente porque essa publicidade continua existindo, o Conanda traz uma norma que dá a interpretação, para que o juiz, promotor ou o Procon possam identificar de maneira mais fácil o abuso”, afirma.
Segundo ela, a resolução não tem impacto sobre a produção de produtos como brinquedos, cadernos e alimentos. Eles poderão continuar a ser produzidos, diz ela, mas terão de ser divulgados em propagandas de canais adultos e sem elementos do universo infantil. "O licenciamento para entretenimento não é afetado: os desenhos continuam existindo, os brinquedos continuam existindo, o problema é a comunicação que se faz disso", diz.
A advogada relata caso em que a propaganda é feita até mesmo dentro das escolas. “Há denúncias de canais infantis que vão às escolas e distribuem brindes de novelas”, diz.
Outro lado
Para a Maurício de Sousa Produções, dona dos projetos que envolvem a Turma da Mônica e maior estrutura de licenciamento da América Latina, a norma traz prejuízos para a economia.
De acordo com levantamento divulgado pela empresa, a produção destinada ao público infantil gera R$ 51,4 bilhões em produção na economia nacional, 1.17 bilhão de empregos, mais de R$ 10 bilhões em salários e quase R$ 3 bilhões em tributos.
Com as propostas do Conanda em prática, que restringem nas peças publicitárias o uso de linguagem infantil, de personagens e de ambientes que remetem à infância, as perdas seriam, segundo a MSP, de R$ 33,3 bilhões em produção, cerca de 728 mil empregos, R$ 6,4 bilhões em salários e R$ 2,2 bilhões em tributos.