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21/03/2015

ESPECIALISTA ANALISA ESCASSEZ DE ÁGUA EM DIVERSOS ESTADOS

Na virada do século, em 2001, o especialista em recursos hídricos Marcos Freitas, então diretor da Agência Nacional das Águas (ANA), foi convidado a fazer projeções sobre o futuro do Brasil e como seria a vida dos brasileiros em 2015. À época, a resposta de Freitas pareceu um tanto esdrúxula: o país, mesmo tendo o maior volume de água doce do planeta, viveria uma grave crise hídrica.



Ele acertou na mosca, pois em São Paulo a população já sofre com a pressão reduzida na rede, o que muitas vezes significa conviver com torneira seca por até 18 horas. E pior: mesmo com as chuvas de março é possível que a população seja obrigada a enfrentar um rigoroso racionamento em alguns dias da semana.



A medida drástica tem uma razão. Se as chuvas não continuarem freqüentemente e o consumo não for reduzido, os reservatórios podem ficar sem água ainda no primeiro semestre. O cenário faz cogitar possibilidades como antecipação das férias escolares de julho para maio, uma maneira de incentivar que muitas famílias deixem o Estado e, assim, diminuam o uso de água.



Mas se o problema era conhecido há tantos anos, por que não foi evitado? A resposta é complexa. O fato é que a previsão de Freitas a mais de uma década atrás, não tinha nada de sobrenatural. Estava baseada em números.

“Entre 1998 e 2000, trabalhei na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), onde nos preocupávamos muito com a quantidade de água disponível. Quando fui transferido para a ANA, em 2001, e comecei a prestar atenção na qualidade. Fiquei estarrecido com a poluição de rios e a falta de tratamento. Era questão de tempo”, afirma.



Alerta

Hoje professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o técnico conta que a situação observada há quase 15 anos atrás foi comunicada aos governos paulista e federal, mas não teve efeito. E atribui isso à “surdez pluripartidária”, já que obra de saneamento “não aparece” e, por isso, “não dá voto”.

“É impressionante que, até hoje, a ANA não consegue exercer poder de polícia e cuidar dos mananciais”, observa Freitas.



O alerta da agência em 2001 não foi o único. Em 2009, o próprio governo paulista, com base na análise de mais de 200 especialistas, apontava risco de desabastecimento em 2015. E pior: a estiagem que afeta o Sudeste há pelo menos três verões foi apenas um dos fatores que intensificaram o problema. Não o gerou sozinho. É preciso incluir na conta o descuido com as fontes de água, a falta de investimento das empresas para evitar desperdício e a gestão inadequada, que tratou a água como fonte inesgotável quando era cada vez mais escassa.



Soma-se a isso outro ingrediente: a falta de diálogo com a população. Em ano eleitoral, como foi 2014, candidatos tucanos e petistas fizeram malabarismos retóricos para amenizar a dimensão do colapso e evitar a palavra racionamento. O resultado é a pior crise hídrica da história de São Paulo.



Racionamento

Mesmo que a falta de chuva se concentre no Sudeste, é consenso que o impacto se espraiará pelo país. Se não por dificuldades no abastecimento, na alta do preço da luz e da comida e no enfraquecimento da economia. Analistas projetam que o Brasil crescerá 0,1% em 2015, só que o ajuste fiscal do governo e a falta de água podem levar a taxa para baixo de zero.



Em Minas Gerais, após sobretaxar o consumo, o governo sinalizou que pretende adotar racionamento para diminuir o uso em pelo menos 30%. Eventos tradicionais, como o Carnaval em Ouro Preto, tiveram de ser adaptados. Até as repúblicas de estudantes, que costumam receber milhares de turistas durante o feriado, limitaram o tempo de banho.



Guerra hídrica

Até onde a crise hídrica é capaz de chegar? Difícil dizer. Mas especialistas indicam que o cenário atual é só o início de uma “guerra hídrica” entre os Estados por rios que cortam o Sudeste do país.



“É uma escassez que se arrasta. E mesmo que chova muito acima da média durante cinco anos, e os reservatórios voltem a ficar totalmente cheios, nada vai ser como antes”, finaliza Roberto Kirchheim, geólogo especializado em recursos hídricos.



Ituverava

No ano passado, devido à falta de chuvas e desperdício de água, Ituverava por pouco escapou do racionamento. Na época, o Rio do Carmo, responsável pelo abastecimento da cidade, ficou com apenas 20% de sua capacidade.

Hoje, devido às chuvas recentes, voltou ao normal, porém a preocupação não foi embora.

Prova disso é que entrou em vigor no dia 19 de dezembro do ano passado, uma lei que proíbe a utilização de água tratada para a limpeza e lavagem de calçamentos e passeios públicos residenciais e comerciais no período de estiagem, exceto em situação de necessidade extrema. O período de estiagem, de acordo com a lei, vai de 15 de junho a 15 de setembro de cada ano, podendo ser prorrogado, se for necessário.



De acordo com a lei, as pessoas que forem flagradas nessa situação serão punidas. Na primeira infração, será feita uma advertência por escrito. Na segunda será aplicada multa equivalente ao triplo do valor da última conta de consumo de água e esgoto.

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