Nossa Capa


Publicidade





ENQUETES

Voltar | imprimir

18/07/2015

EDIÇÃO 3138 ENQUETES - MORTE DE CANTOR FAZ RESSURGIR DISCUSSÃO SOBRE USO DE CINTO DE SEGURANÇA

Carro do cantor Cristiano Araújo após o acidente

Segundo pesquisa do IBGE, em todo o país, metade das pessoas que viajam no banco traseiro não usa cinto de segurança

No dia 24 de junho, o cantor Cristiano Araújo e sua namorada, Allana Moraes, morreram em um acidente automobilístico chocando todo o país e trazendo à tona um dos assuntos mais questionados do momento: o uso do cinto de segurança, principalmente no banco traseiro.

O casal estava em automóvel considerado seguro, uma Range Rover, e trafegando em uma rodovia em bom estado de conservação. Mas isto não foi suficiente para evitar a morte do cantor e da namorada, que viajava no banco traseiro e não usavam cinto banco. Os outros dois ocupantes do veículo, que usavam o cinto, sobrevieram.

Segundo uma pesquisa do IBGE, no Brasil metade das pessoas que viajam no banco traseiro não usa cinto de segurança. O uso é obrigatório por lei, mas ainda não se tornou hábito entre a população.

Um levantamento, com base em acidentes nas rodovias pedagiadas do Estado de São Paulo, mostra que de janeiro de 2012 a outubro do ano passado, 69% das pessoas que estavam no banco de trás e morreram não usavam o cinto de segurança. Para o especialista em transporte, Sérgio Ezjenberg, só a fiscalização não basta. É fundamental que o passageiro e o motorista sejam conscientes.

“A lição é simples para o motorista: sentou no carro, olha pra trás e só ligue o motor se os passageiros colocarem o cinto. Se não colocou o carro não sai do lugar”, diz.

Para especialistas, a culpa é da falsa sensação que as pessoas têm de que, estando no banco traseiro estão protegidas pelos bancos da frente e não correm risco de serem arremessadas do carro, no caso de uma batida.

Airbags disparados
O carro em que viajavam Cristiano Araújo e a namorada era um Range Rover Sport, modelo da marca de luxo Land Rover. Fotos do acidente mostram airbags frontais e laterais abertos. Além de dois airbags frontais obrigatórios por lei para carros fabricados a partir de 2014, o carro possui outros 5 airbags, incluindo os laterais, que ajudam na proteção dos ocupantes do banco traseiro.

Há ainda sistemas que ajudam a prevenir acidentes, além do ABS, que evita o travamento das rodas e também é exigido por lei desde 2014: distribuição eletrônica da força de frenagem, assistente de frenagem de emergência e em curvas, controle de estabilidade e de tração, entre outros itens.

Especialistas dizem que todos esses sistemas não se sobrepõem ao uso do cinto de segurança, inclusive no banco de trás. "O airbag é um equipamento de segurança suplementar", alerta Alessandro Rubio, coordenador técnico do Centro de Experimentação e Segurança Viária (Cesvi). "Inclusive, ele também é conhecido pela sigla SRS, que significa, em inglês, Supplemental Restraint System", lembra.

Peso de um elefante
Em uma colisão, o passageiro do banco de trás, sem cinto, pode ser arremessado sobre o motorista e o carona com uma força 50 vezes maior do que o seu peso, chegando a ser comparável ao de um elefante ou um hipopótamo.

Além disso, sem o cinto, o ocupante é como um objeto solto dentro do carro, batendo em diversas partes do veículo.

Ganhador do prêmio Nobel morreu por falta do cinto
O matemático John Forbes Nash Jr, de 86 anos, que inspirou o filme "Uma mente brilhante", morreu em um acidente de carro em maio deste ano. Ele a esposa estavam no banco traseiro e não utilizavam o cinto de segurança.

“Um exemplo recente e contundente foi da morte do Nobel de Economia (1994), o matemático John Nash e da sua mulher Alícia em New Jersey, nos Estados Unidos. O casal estava num táxi, no banco traseiro, sem o cinto, quando sofreu um acidente. O taxista e o motorista do outro veículo envolvido no acidente se salvaram”, comenta José Aurélio Ramalho, diretor-presidente do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV).

Cinto de segurança no banco traseiro pode reduzir risco de morte em 75%
Segundo o ortopedista Daniel Ramallo, do Instituto de Traumatologia e Ortopedia do Rio de Janeiro (Into), um estudo da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) mostra que o cinto de segurança no banco da frente reduz o risco de morte em 45% e, no banco traseiro, em até 75%.

De acordo com o especialista, a maioria dos motoristas sabe da importância do equipamento para a segurança. Mas, os passageiros nem sempre têm essa consciência. “A maioria das vezes, o passageiro entra no banco de trás e não se preocupa em colocar o cinto. O motorista não faz o alerta de que ele deve utilizar o cinto de segurança. Esse equipamento tem uma importância fundamental e pode salvar vidas”, orienta.

“Em cada mil pessoas que morrem, em torno de 50, estão envolvidas diretamente ao não uso do cinto de segurança”, observa o ortopedista, lembrando que em uma batida a 50 km/h, uma criança no banco de trás, por exemplo, sem o cinto é jogar para frente do veículo. Chocando-se com o vidro e podendo até ser lançada fora do veículo.

Daniel Ramallo alerta que os riscos para os adultos são ainda maiores. “Quanto maior o passageiro, maior também o impacto no caso de uma batida sem a proteção. Com uma criança o impacto pode chegar a uns 300 kg de impacto. Se fosse um adulto para mesma velocidade chegaria a uma tonelada”, esclarece o ortopedista.

Perigos
O médico explica que em uma colisão, o motorista sem cinto, por exemplo, pode bater o peito no volante e a cabeça no vidro. “Se estiver de cinto, bem provavelmente baterá a cabeça somente no volante, impacto que pode ser evitado caso o veículo tenha airbag. Mas, na comparação entre os dois itens de segurança, o cinto é 90% mais importante e não pode ser substituído pelo airbag” diz o ortopedista.

Outro tipo de colisão é a dos órgãos internos do corpo humano contra a própria estrutura óssea, como por exemplo, o cérebro contra o crânio, o pulmão ou coração contra a caixa torácica, etc. “Nesses casos, o uso do cinto salva vidas porque além de absorver o impacto, distribui o restante da “pancada” pelos pontos mais fortes do corpo, evitando lesões internas” explica Ramallo.

“A chance de sobreviver num acidente é cerca de cinco vezes maior se a vítima permanece dentro do automóvel” acrescenta o médico.

Não usar é perigo pra todos Um vídeo da ONG Observatório Nacional de Segurança Viária mostra como é a dinâmica de passageiros sem cinto no banco de trás, durante um acidente. Se o veículo estiver a 60 quilômetros por hora e bater contra um muro, por exemplo, um passageiro sem cinto no banco de trás e que pesa cerca de 60 quilos. é arremessado a um peso 15 vezes maior que o seu, ou seja, vira um objeto de quase uma tonelada. “É como levar um elefante no banco de trás”, analisa o ortopedista.

A pancada também faz com que esta pessoa seja arremessada em duas direções: para frente e para cima. Assim, ela corre o risco de bater a cabeça no teto, dobrar o pescoço para trás e causar uma flexão extrema na coluna cervical, lesão que pode paralisar várias partes do corpo pra sempre, se não levar à morte.

Falta de fiscalização
"Infelizmente, são dezenas de pessoas que morrem pelo Brasil todos os dias por falta do uso do cinto de segurança, especialmente nos assentos traseiros. A discussão desse assunto ganha destaque porque envolveu uma pessoa famosa, mas é uma realidade corriqueira no país”, afirma José Aurélio Ramalho, diretor-presidente do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV).

A falta do uso do cinto no banco de trás também é passível de multa e pontuação na carteira de habilitação, mas, segundo o especialista em segurança no trânsito, existe maior dificuldade das autoridades de fiscalizar o uso do cinto nos assentos traseiros, fazendo as pessoas não se preocuparem. “As pessoas acreditam que o carro é uma armadura e existe a falta da percepção de risco, provocando a negligência”, explica.

Confira as respostas:



Voltar | Indique para um amigo | imprimir