Nossa Capa


Publicidade





ENQUETES

Voltar | imprimir

26/09/2015

EDIÇÃO 3148 ENQUETES - FARMÁCIAS QUEREM SE TORNAR PEQUENOS CENTROS MÉDICOS

Interior de drogaria

Intuito é realizar pequenos procedimentos e desafogar o sistema de saúde nacional

Farmácias e drogarias anunciaram recentemente que querem ir além da venda de medicamentos e produtos de beleza, e almejam criar pequenos centros médicos e desta maneira desafogar o sistema de saúde do país.

A Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) tem procurado apoio de órgãos e da população para que os estabelecimentos sejam autorizados a funcionar como alternativa em tratamentos de saúde. Uma pesquisa encomendada pela associação revelou, por exemplo, que um quarto das pessoas que sofrem de doenças crônicas não volta aos consultórios.

A estimativa da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) é que a maioria dos associados já faça algum serviço agregado à operação: 51% das redes ministram medicamento injetável; 33% verificam a pressão arterial e 10% fazem teste de glicemia capilar. Com a obrigatoriedade de se ter um farmacêutico no ponto de venda em tempo integral, a entidade pleiteia agora junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a regulamentação da clínica médica.

Hoje, a Lei 13.021/14 especifica que: “Poderão as farmácias de qualquer natureza dispor, para o atendimento imediato da população, de medicamentos, vacinas e soros, que atendam o perfil epidemiológico de uma região demográfica”.

“Atendemos mais de 800 milhões de pessoas em 2014. Podemos ampliar isso”, declarou o presidente da Abrafarma, Sérgio Mena Barreto.

Segundo ele, porém, além da falta de regulamentação, a inserção de serviços de clínicas nas lojas sofre pressão dos médicos. “Existe uma ação do Conselho de Medicina contra o Conselho Regional de Farmácias. Eles afirmam que atendimento de saúde deve ser apenas feito por médicos”, relata.

Mas isso não tem sido impedimento para que redes como Panvel e Drogaria Venancio invistam no serviço. Muito similar ao utilizado nos Estados Unidos, as clínicas podem até ser uma forma de rentabilizar a operação farmacêutica no Brasil. “Nos EUA tem até médico nas farmácias, mas é claro que aqui a idéia não é a de substituirmos os médicos”, explica.

Quem já deu início ao projeto de mais serviços nas lojas foi a Pague Menos, com quase 130 - dentre as 790 lojas - que já contam com as Clinic Farmas.

O presidente da rede, Deusmar Queiroz, afirmou que a meta é fechar o ano com 250 unidades e contabilizar mil atendimentos nas lojas até 2017. Para o empresário, o farmacêutico é muitas vezes o contato mais próximo do consumidor e um especialista capacitado para pequenas demandas. Por isso, a regulamentação da função ajudará a desafogar o SUS. “Tem gente que demora meses para conseguir uma consulta básica, portanto podemos ajudar”, defende.

Queiroz explicou que as Clinic Farmas medem pressão arterial e fazem testes simples de glicose. Ele acredita, porém, na ampliação dos serviços. “O farmacêutico é capaz de trabalhar com vacinas. Não é preciso mais contratar cubanos. Basta autorizar os profissionais que estudaram tanto e capacitá-los a prestar esse serviço”, destaca, lembrando que hoje, as vacinas de imunização são aplicadas apenas em clínicas especializadas ou em postos de saúde.

Cuidador
Pesquisa do Ibope Inteligência aponta que o consumidor verá o farmacêutico como cuidador. O estudo apontou que 53% dos entrevistados creem na importância do papel do farmacêutico no futuro das farmácias. Outros 51% fariam exames preventivos no local e 48% aceitariam receber do farmacêutico um programa de tratamento contra o tabagismo.

“O consumidor quer mais serviços nas farmácias”, afirmou a CEO do Ibope, Márcia Cavallari Nunes. “Aprovamos auto-testes e isso beneficia as farmácias. Estamos empenhados em tudo isso”, finaliza o diretor de regulamentação sanitária da Anvisa, Renato Porto.

Médicos afirmam ser contrários à mudança
O presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, Antônio Carlos Lopes, afirma que a classe médica não é favorável à medida. “O farmacêutico não tem formação para diagnosticar doenças, atribuição exclusiva do médico. Não se pode tratar uma enfermidade simplesmente por semelhança, e sim com profundos conhecimentos baseados nas suas características epidemiológicas, etiopatogênicas e fisiopatológicas”, afirma.

“Dor de cabeça não é doença, cólica também não, muito menos coriza. Mas atrás destas manifestações, o indivíduo pode ter hemorragia, pneumonia e outras complicações graves. Dor abdominal que pode caracterizar simples gastroenterite, por vezes é indício de uma enfermidade muito mais séria, como a apendicite. Sendo assim, o tratamento baseado apenas em sintomas e sinais pode retardar e mascarar o diagnóstico, colocando em perigo a vida do doente. Além disso, não se pode menosprezar efeitos colaterais importantes das drogas e sua interação com demais medicamentos em uso, além de poder complicar doenças pré-existentes”, defende Lopes.

Riscos à Saúde
Ainda segundo ele, seria possível que um tratamento que seria domiciliar, acabe gerando internações prolongadas, com mais riscos à saúde. “Aquela pneumonia que estava no início e poderia ser facilmente tratada em casa, poderá exigir hospitalização. E aí entramos naqueles outros problemas já bem conhecidos da população brasileira, como a falta de leitos em hospitais, prontos-socorros lotados, enfim, uma situação que atravessa a barreira da delimitação de atividades de uma ou outra classe profissional, agravando o já crítico problema social”, destaca.

“Aguardar pelo diagnóstico médico, no final, é muito menos grave do que a ansiedade de buscar a cura com quem não tem competência para prescrever um tratamento adequado. É preciso que se resgate o SUS”, defende.

Ainda de acordo com ele, o farmacêutico é um profissional da área da saúde extremamente importante na função que exerce até o momento, mas o direito e o dever de prescrever medicamentos são do médico. “E isso ele faz a partir do diagnóstico da doença, e não de sintomas e sinais. Este é um dos princípios básicos, aprendido e repetido ao longo de todo o curso médico: diagnóstico adequado é fundamental para o sucesso do tratamento e deve ser levado a sério. A partir deste princípio vem outro, de que as doenças mesmo quando simples devem ser tratadas com a devida seriedade, para seguirem sendo simples”, completa.

Confira as respostas:

Voltar | Indique para um amigo | imprimir