Clique aqui para ver a previsão completa da semana
05/06/2016
Rótulos deverão trazer informações a respeito de produtos alergênicosObrigatoriedade começa a valer a partir do dia 3 de julho, porém indústria quer prorrogar o prazo
A pouco mais de um mês do fim do prazo que obriga a indústria a informar a presença de alimentos causadores de alergia nos rótulos, fabricantes se movimentam para pedir mais tempo a fim de se adequarem à nova exigência.
A norma da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) que trata dessa obrigação foi aprovada em junho do ano passado e entrará em vigor no dia 3 de julho.
Segundo a resolução, todas as embalagens de alimentos e bebidas deverão exibir o alerta "alérgicos: contém..." em letras maiúsculas e em negrito logo após a lista de ingredientes, ao lado do já conhecido “contém glúten”.
Leite, ovos, trigo, peixe, crustáceos, soja, diferentes tipos de castanha e látex natural (a contaminação pode ser por meio de luvas, por exemplo) são os principais alergênicos que devem ser informados nos rótulos.
Estima-se que 8% das crianças com menos de três anos e 4% dos adultos sofram de alergia alimentar.
A indústria, porém, alega que o prazo de um ano não foi suficiente para obter as informações de todos os integrantes da cadeia de produção.
Diversas associações se reuniram com a Anvisa recentemente e pediram prorrogação de seis meses a um ano.
“As empresas apóiam as demandas do consumidor e estão correndo atrás, mas ainda estão se adequando. A grande dificuldade é obter as informações dos fornecedores de matéria-prima, principalmente de outros países. Muitos não repassaram os dados a quem entrega o produto final”, diz Tatiana Pires, presidente da Abiad (Associação Brasileira Associação Brasileira da Indústria de Alimentos Dietéticos).
A entidade requisitou a prorrogação junto com outras 17 associações e sindicatos. Segundo Tatiana, a dificuldade no caso dos produtos importados são as diferentes legislações em diferentes países. “Lá fora há quem obrigue a dizer apenas nuts [castanhas]. Aqui temos que dizer se é castanha-do-pará, castanha-de-caju, amêndoa, avelã, pistache etc.”, diz.
Pires alega ainda que as empresas menores não têm as mesmas condições das maiores de cumprir a exigência. “Queremos garantir isonomia para que seja justo para todo o setor”, afirma.
dificuldades com fornecedores
A Associação Brasileira da Indústria da Alimentação (Abia) também citou dificuldades com fornecedores. "Se eles só informarem sobre os componentes alergênicos no último dia do prazo, a indústria não conseguirá mudar o rótulo em tempo hábil", disse em nota. "Ainda assim, grande parte das empresas associadas à Abia já está cumprindo a norma".
A associação estima que 65% das empresas associadas já estão em acordo com a resolução. De fato, já é possível encontrar em mercados diversos produtos com a nova exigência – alguns até com uma etiqueta colada sobre o rótulo antigo, atualizando as informações.
Estudo liga alergia a células imunológicas hiperativas
Um estudo realizado com sangue do cordão umbilical de mil bebês, do Estado de Vitória, na Austrália, revelou que recém-nascidos com células do sistema imunológico hiperativas no nascimento estão mais propensos ao desenvolvimento de algumas das alergias alimentares mais comuns, incluindo amendoim, leite, ovos e trigo, ainda no primeiro ano de vida.
A pesquisa, conduzida pelo Dr. Yuxia Zhang e pelo professor Len Harrison, do Walter e Eliza Hall Institute, e pelo professor adjunto Peter Vuillermin, do Barwon Health, Deakin University and the Murdoch Childrens Research Institute, foi publicada na revista Science Translational Medicine.
O professor Harrison disse que houve grande interesse no sangue do cordão umbilical, porque este proporciona uma rica fonte de células-tronco, que se desenvolvem em vários tipos de células orgânicas diferentes, já no início da vida e durante o crescimento.
As amostras de sangue do cordão umbilical, tiradas entre 2010 e 2013, revelaram uma “assinatura imune”, que se caracteriza por um aumento do número de células imunológicas chamadas monócitos, que eram mais “ativadas” em bebês que desenvolveram a alergia alimentar. “Através da análise do sangue do cordão umbilical conseguimos compreender a relação entre alergias alimentares em bebês e a ativação dos monócitos no sangue do cordão umbilical”, disse Harrison.
Os monócitos são considerados os soldados do sistema imunológico, pois eles respondem rapidamente a infecções e outras agressões ao sistema imunológico. Sua ativação ocorre algum tempo antes ou durante o parto, e é causada por células imunitárias especializadas, conhecidas como células T, no intuito de gerar uma resposta imunológica. As células T têm sido associadas a alergias, mas como se tornaram hiperativas nos bebês é ainda um mistério.
Assinatura Imune
O professor Harrison salientou que um bebê com a assinatura imune nem sempre desenvolve alergias alimentares. Ele explicou que o bebê com a “assinatura” é somente predisposto a desenvolver alergias. “Há alguns bebês com a “assinatura” que não desenvolvem alergias alimentares, o que sugere que outros fatores entram em jogo no primeiro ano de vida”, disse ele. Os bebês do estudo foram avaliados aos 6 e 12 meses de idade.
Esses outros fatores poderiam incluir o tempo de exposição da criança a alimentos sólidos, o uso de antibióticos, infecções e se elas nasceram de um parto natural ou de cesariana. A dieta da mãe – incluindo a diversidade de alimentos ingeridos e da quantidade de alimentos processados ou aditivos – são também possíveis fatores.
“Nós também estamos interessados em saber se existe uma suscetibilidade genética herdada para isso, mas eu acho que isso ocorre devido à uma combinação de fatores”, disse o professor Harrison.
Os pesquisadores agora irão coletar dados sobre as mães e examinar fatores como dieta, estilo de vida e exposição a toxinas ambientais, para verificar se eles poderiam estar envolvidos na excitação das células do sistema imunológico hiperativo.
Movimento Põe no
Rótulo quer evitar que o prazo se prorrogue
Para representantes do movimento Põe no Rótulo, que reúne centenas de mães de crianças alérgicas, que encabeçou a campanha pedindo a mudança nas embalagens, a existência de produtos que já cumprem a exigência mostra que é possível fazer a mudança no prazo.
"É claro que pode haver dificuldades pontuais, mas o tempo era suficiente. Como podem dizer que até agora não sabem os ingredientes que estão em seus produtos, que não sabem o que vai na máquina? Eu teria vergonha de não ter esses dados", diz Cecilia Cury, advogada e coordenadora do Põe no Rótulo.
A Anvisa afirmou que vem recebendo pedidos de diferentes segmentos da sociedade relativos à prorrogação de prazo, mas ainda avalia essas solicitações. A agência também afirma que não há nenhuma proposta de adiamento tramitando.
Segundo a Anvisa, a rotulagem inadequada de alimentos representa infração sanitária. Quem não cumprir a norma dos alergênicos quando ela entrar em vigor estará sujeito a advertência, interdição ou multa, que pode variar entre R$ 2 mil e R$ 1,5 milhão.
Apoio na Divulgação
O movimento Põe no Rótulo tem apoio de diversas personalidades na divulgação. Dentre elas estão: a atriz Carolina Kasting, o ator e escritor Gregório Duvivier, o cartunista Ziraldo, a jornalista e apresentadora Fátima Bernardes, os atores Mateus Solano e Marco Nanini.