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06/12/2016

DENTISTAS BUSCAM FORMAS PARA TRATAR A CÁRIE SEM MOTORZINHO

A dentista Ana Rosa de Matos Piloto, proprietária do Centro de Radiologia Bucal de Ituverava

Tendência, de acordo com especialistas, é que os procedimentos odontológicos se tornem menos invasivos

Reportagem do jornal Folha de S. Paulo mostra que alguns dentistas, cientes do terror causado pelo motorzinho e avaliando a severidade de cada caso, têm deixado o aparelho de lado e, em certos casos, até mesmo deixando as cáries quietas em seus cantos.

O tratamento costumeiro, pelo menos até então, era a remoção completa, na qual toda área cariada era extirpada. O protagonista da tarefa, claro, era o motorzinho, aparelho que, com auxílio de brocas em alta rotação, desgasta o dente.

Seguindo uma filosofia odontológica de mínima intervenção, muito desse estresse pode ser evitado e é possível até não fazer absolutamente nada em relação a uma cárie.

“É igual quando você tem uma pinta e procura um dermatologista”, afirma José Imparato, presidente da ABO (Associação Brasileira de Odontopediatria) e professor da USP. “Você vai controlar a lesão da cárie assim como controla pintas no corpo, sem precisar remover todas”, explica.

Remoção seletiva
A cárie, em geral, pode ser dividida em duas partes. Uma delas é a infectada, cheia de bactérias, amolecida e morta. A outra é a área afetada, mais seca e com menos bactérias. A ideia é fazer uma remoção seletiva, ou seja, retirar somente a primeira parte.

É possível fazer uma remoção mecânica ou unir a ação de instrumentos manuais com a remoção química. Entram, em ação, então, compostos que conseguem amolecer a cárie ainda mais, facilitando a remoção seletiva. Nesse caso, géis à base de papaína (enzima extraída originalmente do mamão) são uma opção.

“O tratamento com gel é conservador. Na maioria das vezes nem usamos motor”, diz Sandra Kalil, criadora de um dos produtos à base de papaína disponíveis no mercado. “Ele reage com o tecido cariado e não com o normal. Tira a terra ruim sem afetar a boa”, diz Alexandre Magno, consultor científico de outro desses produtos, recém-lançado.

Bisnagas de um dos produtos, por exemplo, podem ser encontrados por volta de R$ 80 e ser usados para entre 40 e 50 aplicações (cerca R$ 2 por aplicação). “O tratamento não é mais caro por causa disso [do gel], pode ser até mais barato”, diz Kalil.

Tratamento a laser
Lasers também fazem parte do arsenal do tratamento dentário. Finalmente, não remover nada também é uma opção na filosofia de mínima intervenção. Se a lesão da cárie for pequena e não estiver muito profunda na dentina (camada interna do dente), o buraco pode ser selado com substâncias adequadas, sem a necessidade de remoção.

Esses procedimentos menos invasivos são agrupados sob a sigla ART (Tratamento Restaurador Atraumático, na sigla em inglês).

Nenhum deles, contudo, substitui completamente o uso do motorzinho. São maneiras complementares de tratar a cárie, dependendo das condições do paciente, dizem especialistas.

Diagnóstico
As novas diretrizes da cariologia (área do conhecimento que estuda cáries) afastam o motorzinho da boca das pessoas menos por novas tecnologias e mais pela preocupação com diagnósticos precisos.

“Tratamentos invasivos vêm perdendo espaço, é uma tendência”, afirma o cirurgião-dentista Rodrigo Moraes. Ele diz que antes se acreditava que um pontinho preto no dente contaminava toda a área ao redor.

José Imparato compara a situação com cirurgias cardíacas que antes precisavam da abertura do peito e hoje são resolvidas com pequenas incisões. “É claro que a pessoa vai preferir a menos invasiva”, destaca.

“Às vezes a lesão não é visível. Quem se incomoda é o dentista, não o paciente”, diz o presidente da ABO. Ele afirma que, se antes o explorador dental (o pequeno gancho dos dentistas) era passado bruscamente pelos dentes à procura da cárie, hoje o diagnóstico se baseia mais no visual e em radiografias.

Contudo, manter bons hábitos de higiene bucal, como escovação, uso de fio dental e escovas interdentais é o melhor tratamento não invasivo, segundo Moraes.

“Em tempos de crise as pessoas tendem a negligenciar a ida ao dentista. É muito mais caro depois reconstituir dentes estragados do que investir um pouco na saúde bucal”, completa o cirurgião-dentista.

Dentista destaca a importância da prevenção para boa saúde bucal
Entrevistada pela Tribuna de Ituverava, a dentista Ana Rosa de Matos Piloto, proprietária do Centro de Radiologia Bucal de Ituverava, defende que o melhor tratamento não invasivo e de maior qualidade continua sendo a prevenção.

“Bons hábitos como uma adequada escovação, uso de fio dental, aplicações de flúor e exames de rotina, clínicos e radiográficos, são medidas essenciais para uma perfeita saúde bucal. O exame radiográfico é incluído nesse arsenal, pois existem lesões entre os dentes e até mesmo lesões ósseas (tumores, por exemplo) que não são visualizadas em exames clínicos”, explica.

“Técnicas alternativas que substituem o uso do alta rotação (motorzinho), a exemplo de géis e sistema de microabrasão, vêm sendo testadas desde a década passada, mas infelizmente ainda não substituíram totalmente o seu uso. Sendo assim, tais procedimentos praticamente ficam em desuso, porque de uma forma geral o temido motorzinho entra na cena e acaba resolvendo a grande maioria dos casos”, diz.

Além disso, segundo Ana Rosa, nos dias atuais, esse temor não existe como nos tempos passados, posto que atualmente o dentista é treinado para um bom condicionamento do paciente e um melhor controle da dor, fatores importantes que levam ao paciente uma situação de mais conforto e confiança.

“O que posso dizer de mudanças é em relação à melhora da qualidade e da eficiência dos materiais dentários usados nos dias atuais. Antigamente, precisávamos limpar completamente uma cavidade cariada removendo 100% do tecido lesado. Hoje, já existem materiais que, para algumas lesões, são capazes de selar de forma satisfatória a cavidade, estabilizando a progressão da cárie e conservando assim mais estrutura dentária”, defende.

“Portanto, a prevenção, com consulta periódica a seu dentista, ainda é a melhor técnica a ser praticada”,completa.

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