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27/03/2017
Criado com investimento de R$ 13,5 milhões do acordo Shell-Basf, prédio de 2,5 mil metros quadrados vai concentrar estudos sobre padrões genéticos e comportamentos para prever doenças oncológicas. Atividades começam em abril.
Hospital de Câncer de Barretos (SP) inaugurou nesta sexta-feira (24) um centro, considerado inédito na América Latina, de pesquisas moleculares voltado para a prevenção do câncer. Com um investimento de R$ 13,5 milhões, e bancado com recursos de uma ação do Ministério Público do Trabalho (MPT) de Campinas (SP), conhecida como caso Shell-Basf, a unidade tem previsão de começar a funcionar a partir de abril, com o objetivo de associar padrões genéticos e comportamentos a doenças oncológicas.
O centro, integrado ao hospital e ao Instituto de Ensino e Pesquisas do HC, que hoje já desempenha estudos moleculares para casos de câncer avançado, também nasce com a intenção de estabelecer o maior banco de amostras - também chamado de biobanco - da América Latina, de desenvolver medicamentos e coordenar ações de educação e conscientização.
"A maior parte dos centros de pesquisa foca no câncer avançado, na doença avançada, no tratamento, em melhores fármacos, melhores drogas, o que é fundamental, mas a genética e a pesquisa molecular podem dar também grandes contributos nas fases iniciais para tentar prevenir, para identificar mais precocemente o câncer. Esse centro também vai utilizar ferramentas moleculares, genéticas e modernas, mas seu foco não vai ser uma doença avançada, mas vai ser tentar evitar o aparecimento das doenças", disse o diretor científico do Instituto de Ensino e Pesquisa do HC de Barretos, Rui Manuel Reis.
O Hospital de Câncer também prevê a abertura, ainda este ano, de um Instituto de Prevenção em Campinas, como parte de investimentos que chegam à ordem de R$ 70 milhões de um acordo firmado após uma fábrica de pesticidas de Paulínia (SP), que já foi da Shell e da Basf, ser processada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) em função de denúncias de contaminação de funcionários.
Referência nacional em tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o HC de Barretos foi fundado há 55 anos e atende seis mil pessoas por dia, com mais de 4,5 mil funcionários, entre médicos e colaboradores. Em 2016, o hospital realizou, em sua rede de unidades, 829.081 atendimentos de pacientes de mais de dois mil municípios e diagnosticou 14,2 mil novos casos de câncer.
Centro de pesquisas moleculares
O prédio de três andares com 2,5 mil metros quadrados abrigará equipes de médicos, professores e estudantes de pós-graduação do instituto que atuarão com desde a coleta e cruzamento de dados de pacientes até a validação das possíveis causas dos diferentes tipos de câncer, explica Reis.
Com sequenciadores do DNA de última geração e questionários respondidos por pacientes sobre hábitos, condições de trabalho e alimentação, por exemplo, os pesquisadores tentarão associar padrões genéticos, comportamentais e ambientais aos diferentes tipos de câncer.
O mapeamento do DNA utilizará como base o material disponível em um biobanco, hoje com 180 mil amostras biológicas - sangue, saliva, tumores etc - no HC de Barretos, que deve ser duplicado nos próximos anos, segundo o diretor científico. As informações coletadas também devem compor um grande banco de dados em um setor de bioinformática.
No novo centro teremos um laboratório de genômica, com modernos sequenciadores de DNA, PCR digital [exame que avalia a dosagem de proteína C reativa no sangue], entre outras metodologias de genética molecular. Iremos comparar então a sequência do DNA dessas amostras com a presença ou não de câncer dos indivíduos que foram rastreados com o questionário que foi elaborado", disse.
A partir disso, os grupos farão testes em células humanas desenvolvidas em laboratório e em um biotério, espaço de 500 metros quadrados de condições controladas, onde a ação dos tumores, bem como de medicamentos, será avaliada em camundongos.
Com isso, o instituto quer identificar biomarcadores para tumores malignos no pulmão, na mama e câncer colorretal, por exemplo, hoje inexistentes. Atualmente, segundo ele, a comunidade científica conta com exames como o PSA, que associa o elevado nível de proteína no organismo ao câncer de próstata.
Segundo ele, as principais apostas desses potenciais indicadores de câncer no organismo estão na incidência de microRNAs, pequenas moléculas em circulação no sangue, além das características comuns e peculiares encontradas no mapeamento do DNA. "Quando a mulher faz o Papanicolau, a expressão de genes parece ser mais indicativa, mais informativa, do que olhar para a morfologia da célula", argumenta.
Ao fim, a intenção é que seja possível associar a manifestação de tumores malignos a questões como o tabagismo, o estilo de vida, o estresse no trabalho e a exposição a alimentos com agrotóxicos, explica Reis.
"Desta análise toda, vamos encontrar potenciais nexo causais. A gente vai encontrar que determinado perfil, determinado padrão genético está mais frequente, por exemplo, só nas mulheres que desenvolveram câncer e tem uma mamografia alterada e que não tem nas mulheres que não têm câncer."
Investimentos
De acordo com Reis, o centro de genoma inaugurado esta semana é um dos investimentos possíveis graças a recursos obtidos de indenizações de uma ação coletiva movida pelo Ministério Público do Trabalho em nome de trabalhadores contaminados por uma fábrica de pesticidas que pertenceu à Shell e depois à Basf, em Paulínia (SP), entre 1974 e 2002.
As empresas foram condenadas em 2013 pelo Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de Campinas a valores totais que somaram R$ 1 bilhão, o que levou empresas a buscarem acordo.
Segundo o diretor científico do instituto de pesquisas, parte dos recursos foi destinada às indenizações dos trabalhadores e o restante para projetos em prol da saúde pública, como o do Hospital de Câncer.
Os R$ 13,5 milhões gastos na estrutura e nos equipamentos do centro de genoma fazem parte de um total de R$ 70 milhões que a instituição ainda pretende investir em carretas de exames e prevenção e ações educativas. O projeto do HC foi um dos cinco contemplados pelo acordo Shell-Basf.
"A gente vai aplicar uma quantidade significativa em metodologias de rastreio que vão ser utilizadas nessas milhares de pessoas que serão atendidas."
Fonte: g1.globo.com(EPTV)