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18/04/2017
Letra de fôrma já é prioridade nas escolas Não existem sinais de total abandono da letra cursiva no Brasil, mas ela já não é prioridade
A forte presença no dia a dia dos recursos tecnológicos como tablets, joguinhos e aplicativos de telefones celulares, além dos vídeos musicais com legendas, tem ampliado rapidamente, principalmente entre as crianças, uma forte mudança na forma de alfabetização das escolas.
Para se encaixar à realidade dos pequenos, que muitas vezes já chegam à sala de aula reconhecendo as letras, aprender ler e escrever agora pode começar com a chamada letra bastão ou de fôrma: a letra da internet.
Não existem sinais de total abandono da letra cursiva no Brasil, o que já acontece em países europeus e nos EUA, mas já não é prioridade absoluta de ensino e é aprendida em um segundo momento em alguns colégios, como no Santa Amália, em São Paulo, onde as salas do primeiro ano do Ensino Fundamental são decoradas com letras de forma, também tidas como letras de imprensa.
Das anotações da professora no quadro à cartilha da molecada, tudo remete à grafia com que os alunos têm familiaridade seja por meio do teclado do computador dos pais, seja pelos joguinhos eletrônicos e pelas animações.
Mundo Real
“A letra bastão traz para a escola o mundo real da criança, a letra que ela vê no dia a dia e que, com a tecnologia, se tornou ainda mais presente, mais referência”, diz Adriane Ideta, coordenadora pedagógica do colégio.
Segundo ela, quando a criança estiver alfabetizada, inicia-se o ensino da letra cursiva que, “culturalmente, é ainda forte no Brasil”. “É função da escola dar à criança ferramentas para que ela decida, no futuro, que tipo de letra prefere para escrever e que faça isso corretamente, sem vícios de escrita”, afirma.
O colégio Dante Alighieri, também em São Paulo, segue o mesmo princípio pedagógico do Santa Amália, mas há escolas que optam por começar com o ensino da cursiva e as que ensinam os estilos diferentes ao mesmo tempo.
Assinatura
Francisca Maciel, doutora em educação pela UFMG e especialista em alfabetização, explica que é mais fácil alfabetizar pela letra bastão ou, como ela prefere chamar, “de imprensa, maiúscula”.
“Quando a criança está no início do processo de aprendizado, é mais fácil distinguir as letras, saber qual é qual, quando se usa a de imprensa, que também tem o traçado mais simples e é favorável à coordenação motora”, diz.
Para a especialista, aprender a letra cursiva posteriormente não traz nenhum prejuízo aos alunos. Mas é importante que ela seja ensinada em algum momento.
“A cursiva é um desenho, não acrescenta nada especial, mas é mais rápida e dá uma certa identidade. Sem a manuscrita, como ficariam as assinaturas?”.
Já Leopoldo Leal, doutor em design pela USP e que já trabalhou apresentação de tipografias na rede municipal, “o estilo cursivo nada mais é que o reflexo de uma época em que se usava pena e nanquim para escrever”.
Digitação
“Hoje em dia, digitamos muito mais do que escrevemos. Quantos e-mails e mensagens trocamos e quantas anotações à mão fazemos no mesmo dia? A justificativa para não abolir o cursivo na alfabetização é a não inclusão digital total e também a pressão de pais que querem que as crianças sejam educadas exatamente como eles foram”, defende.
O pensador Umberto Eco, em artigo de 2009 para a revista cultural “Opera Mundi”, mostrou preocupação com o fim da letra manuscrita.
Em trecho do texto, ele diz que “é verdade que as crianças escreverão mais e mais em computadores e telefones celulares. Entretanto, a humanidade está aprendendo a redescobrir como esporte e prazer estético muitas coisas que a civilização havia eliminado como desnecessário”, destacou.
O MEC informou que livros didáticos de alfabetização, aprovados pelo Programa Nacional do Livro Didático, em geral, apresentam propostas para a inserção, de maneira gradativa, do reconhecimento e uso dos diferentes tipos de letras que as escolas têm autonomia para decidirem como irão alfabetizar.