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28/08/2017
Jornalista e historiadores apontam que corrupção sempre existiu, mas nunca foi escancarada e comprovada como agora
Um marco histórico para Ribeirão Preto. O veredicto é dos três especialistas ouvidos pelo A Cidade, que apontam a Sevandija como um dos eventos de maior peso nos 161 anos de existência do município. Porém, apesar dos benefícios imediados, são céticos quanto à mudança cultural que ela, sozinha, possa promover na população.
“Foi a primeira vez em que a corrupção foi publicamente exposta, comprovada e, ao menos nos fatos investigados, interrompida. A única investigação a ter começo, meio e, embora ainda não haja condenação criminal, um fim político para os envolvidos”, afirma o jornalista Júlio Chiavennato, autor de 47 livros.
Segundo Júlio, os futuros historiadores analisarão a Sevandija como um “divisor de águas”.“Nunca antes fatos políticos tiveram tanta exposição pela imprensa e tamanho acompanhamento pela população.”
Ele diz não ser possível cravar que os fatos revelados pelo Ministério Público e a Polícia Federal configurem no maior esquema de corrupção da história de Ribeirão Preto. “Entretanto, por ora, não há provas que digam o contrário.”
O professor, historiador e ex-vereador (2001-2004) José Lages (PDT), que este ano lançou o livro “Ribeirão Preto Revisitada”, reforça o papel histórico da operação.
“Em diferentes proporções e esquemas menos visíveis, a corrupção sempre aconteceu. É algo sistêmico, vem desde o Brasil colonial. Mas, em Ribeirão, nunca foi revelada e tão debatida como agora”, diz.
Coordenador do curso de pós-graduação em História da Barão de Mauá, o historiador Rafael Cardoso reforça o papel da Sevandija em expor as irregularidades, mas diz que a corrupção não é novidade.
“Ela [Sevandija] deu à sociedade uma percepção nova de corrupção, com grandes e bem articulados esquemas. Mas expôs algo que historicamente sempre ocorreu e era naturalizada.”
Mas por que as mazelas não eram expostas antes? “Porque nunca antes na história desse País se investigou tanto. A Lava Jato e seu impacto nacional deram lastro para a Sevandija. Deixou um solo fértil, um ambiente propício, um anseio popular para que pudesse ser executada”, explica.
Qual o legado da Sevandija?
“Foi um grande avanço na limpeza das instituições e demonstrou que temos capacidade de revelar e demonstrar quais os sistemas corruptos em funcionamento. O que deve ser feito para que surta efeito no futuro? A criação de mecanismos de controle e de transparência, pois não se pode depender que os indivíduos se sintam coibidos de praticar irregularidades apenas pela repercussão da Operação. Existe, também, um aprimoramento da consciência social. Hoje, a sociedade ribeirão-pretana já fiscaliza a relação entre Executivo e Legislativo” Edson Souza, delegado chefe da Polícia Federal de Ribeirão Preto
Mudança
Apesar dos efeitos imediatos, especialistas não acreditam que a Sevandija possa ter, por si só, impacto estrutural na política ribeirão-pretana.“Só haverá de fato um legado se os partidos políticos forem ideologicamente fortes e estruturados. Não basta apenas a atuação da PF e MP, é necessária a conscientização política da população”, afirma Chiavenatto.
Segundo ele, “a Sevandija não mudou a estrutura política, mas, ao menos a curto prazo, houve mudança da atuação do político e da população perante o populismo. E promoveu também um efeito pedagógico pelo medo: os agentes públicos podem evitar a corrupção pelo temor de se tornarem os próximos alvos.
Lages concorda. “Só o tempo dirá os efeitos estruturais da Sevandija, mas a princípio não vejo uma mudança cultural.”
Caciques caem nas urnas
As dinastias de 40 anos de Cícero Gomes (PMDB) e de 20 anos de Walter Gomes (PTB) chegaram ao fim após a Operação Sevandija. Dos oito vereadores acusados de corrupção na Sevandija que disputaram e eleição, apenas Capela Novas (PPS) foi reeleito. Ele, porém, renunciou. Juntos, esses parlamentares perderam 32.114 votos em 2016 em relação a 2012. Em números absolutos, o maior prejudicado foi Samuel Zanferdini (PSD): caiu de 8.101votos para apenas 833 – 89% a menos. Da antiga base governista de Dárcy Vera, apenas Waldyr Vilella (PSD) foi reeleito. Apesar de não aparecer na Sevandija, ele foi afastado esse ano da Câmara, após A Cidade revelar que atuava clandestinamente como médico. O afastamento judicial foi solicitado pela Polícia Civil e pelo Gaeco.
`Quem são corruptos e corruptores?´
O professor e historiador Rafael Cardoso provoca: “Quem é o sujeito corrupto ribeirão-pretano?”.
E responde: “Prefeito, vereador, empresário... A população costuma associar os agentes corruptores e corruptos vinculados aos círculos de poder. Mas um dos principais agentes é, justamente, a própria sociedade ribeirão-pretana”.
Ele diz que um de seus estudos envolveu cartas de munícipes pedindo ajuda a vereadores. Conta que havia desde pedidos a Walter Gomes (PTB) para viabilizar encontro com celebridades a até apelo para Cícero Gomes (PMDB) ajudar a comprar um vestido de casamento.
“Existe uma prática da malandragem, de indiferenciação do público e do privado, que afeta desde a antiga prefeita ao eleitor.”
Cardoso explica que as mazelas reveladas pela Sevandija estão enraizadas em Ribeirão desde o coronealismo que imperou na cidade principalmente entre 1870 e 1930 – e que ainda se mantém.
Fonte: www.acidadeon.com