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11/09/2017

EDIÇÃO-3247 ENQUETE BRASIL É UM DOS PAÍSES MAIS HOSTIS COM SEUS PROFESSORES

A professora Marcia de Lourdes Friggi, que foi agredida por um estudante

Dos educadores ouvidos em pesquisa, 12,5% disseram já ter sofrido agressões verbais ou intimidações

O Caso da professora de Santa Catarina agredida por um aluno de 15 anos, que repercutiu em toda a imprensa e nas redes sociais essa semana, é só mais uma aberração nas escolas brasileiras. Não se trata de um caso isolado.

“Problemas de agressão e de intimidação de professores por alunos, infelizmente, são frequentes no Brasil. E o número de ocorrências deve ser maior do que se imagina. Por diversas razões, muitos casos devem ser desconhecidos”, afirma Fábio Silva, coordenador pedagógico do Ético Sistema de Ensino.

De fato, o Brasil é um dos países mais hostis com os professores, principalmente da rede pública de ensino. É o que mostra uma pesquisa realizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2014. Entre 34 economias avançadas ou emergentes, em que mais de 100 mil professores foram entrevistados, o Brasil lidera o ranking de violência nas escolas.

Dos educadores que foram escutados, 12,5% disseram já ter sofrido agressões verbais ou intimidações por parte de alunos, ao menos uma vez por semana. “É um número impressionante, se comparado a média observada nessa pesquisa. Nos outros países, apenas 3,4% dos professores disseram fazer parte desse grupo. Essa violência se deve, entre outros fatores, principalmente à falta de valorização que damos aos nossos professores”, diz o coordenador pedagógico.

A pesquisa também aponta para isso. Para apenas 12,6% dos entrevistados, a profissão é valorizada no Brasil, enquanto que nos outros países que participaram dessa pesquisa, 31% pensam da mesma forma.

Código de Conduta Referência na área educacional, o Ético Sistema de Ensino
oferece soluções educacionais a centenas de escolas espalhadas pelo país. Com projetos integrados e inovadores, desenvolve materiais pedagógicos para diversas disciplinas, em diferentes plataformas, tanto para uso dos alunos como também para dar suporte aos professores, atendendo desde a educação infantil até a fase pré-vestibular.

Professora de Santa Catarina foi agredida por aluno de 15 anos
“Dilacerada. Estou dilacerada”. Assim começa o desabafo da professora de língua portuguesa Marcia de Lourdes Friggi, 51 anos, em rede social ao comentar o episódio de agressão sofrido dia 21 de agosto, pela manhã na escola que leciona em Indaial, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, quando levou socos de um aluno de 15 anos.

Em choque com o que aconteceu, a educadora postou fotos com a lesão provocada e fez um desabafo: “Estou dilacerada porque me sinto em desamparo, como estão desamparados todos os professores brasileiros. Estamos, há anos, sendo colocados em condição de desamparo pelos governos. A sociedade nos desamparou”.

Segundo relato de Marcia de Lourdes, que tem 12 anos de experiência do magistério e leciona no Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja) há três anos, era o seu primeiro dia de aula como contratada em regime de caráter temporário (ACTs) para a turma quando ela pediu que o estudante colocasse o livro apoiado nas pernas dele sobre a mesa. Ao que obteve como resposta: “Eu coloco o livro onde eu quiser”.

Agressão
Ao pedir que o jovem se retirasse da sala de aula e fosse à diretoria, o mesmo teria lançado um livro sobre ela. Ao relatar o fato na direção, o estudante a teria chamado de mentirosa. Ela, ao argumentar, foi agredida com socos, sendo um deles no rosto, e lançada contra a parede.

No mesmo dia, o relato da professora tinha mais de 181 mil compartilhamentos. A ação foi registrada pela vítima na delegacia de Polícia Civil da cidade.

O secretário de Educação de Indaial, Ozinil Martins de Souza, diz que a mãe do aluno foi chamada na escola e está ciente da situação. Ainda segundo Souza, o rapaz já era acompanhado pelo Conselho Tutelar e teria entrevistas com psicólogos.

“Se o menino tem 15 anos e está no Ceja (Centro de Educação de Jovens e Adultos) não completou estudos no ano correto, pode ter problemas de conduta ou desinteresse. Evidente que é uma atitude que a gente não concorda, mas precisamos ouvir os dois lados, entender o que levou o menino a ter uma reação tão violenta”, diz o secretário.

Repúdio
Souza acrescenta que, desde que assumiu a pasta, em janeiro, é o primeiro caso de agressão contra professores em escolas na cidade. Em nota, a Secretaria de Educação de Indaial confirmou o caso e disse que “repudia qualquer tipo de agressão física ou moral, independentemente da motivação” e que, após a ocorrência, a direção do centro de ensino prestou apoio à professora e a levou até a delegacia e ao Hospital Beatriz Ramos, onde ela foi atendida e, depois, encaminhada para casa.

A professora Marcia de Lourdes por sua vez, disse que o episódio é reflexo de um cenário de descaso com a classe que acontece hoje em todo o país.

Professores merecem valorização e melhores condições de trabalho
Um professor ou uma professora podem ser uma janela para o mundo que se vê, ou além, para o mundo que se deseja construir. Ainda na infância, intermediados por esses profissionais, experimentamos realidades que não conhecíamos e conhecimentos até então inéditos. Podemos até achar que eram apenas Matemática, Português, História, Filosofia ou Ciências, mas eram vida, em pequenos ou maiores fragmentos. E essa vida era tecida por cada saber que íamos conquistando.

Alguns desses saberes davam seu adeus depois da aprovação do vestibular. Outros ficavam em algum canto da memória, para serem utilizados em um quiz ou em uma entrevista de emprego. Outros tantos magicamente se dissolviam no dia a dia e no repertório de vivências. Passageiros ou permanentes, tais saberes ajudavam a constituir a história singular de cada pessoa, afinal, não existiria nenhum profissional se não fosse pelos seus professores.

Matando um leão por dia
Nossos profissionais, infelizmente, andam matando leões diariamente. A profissão é cada vez mais desvalorizada; a remuneração dos professores é muito abaixo do básico e impede a reciclagem de experiências, como comprar livros ou fazer um curso; a instabilidade no emprego é uma realidade, assim como a carga horária exaustiva; a infraestrutura é precária ou deixa a desejar.

Na sala de aula, os desafios aumentam. A autoridade é questionada por pais e alunos; a indisciplina comparece com uma ofensa verbal ou mesmo uma agressão física; alunos desinteressados tentam ser avivados por professores desestimulados; a cobrança por desempenho dita os caminhos do que deve ser considerado educação.

Afastamentos
Reflexo desses desafios são os afastamentos do trabalho por algum transtorno mental ou problema de comportamento, responsáveis por 27,8% dos casos. Só na rede estadual de ensino de São Paulo, 327 licenças médicas são dadas por dia a docentes, segundo reportagem do Estado de S. Paulo a partir de dados da Lei de Acesso à Informação. Em 2015, foram concedidos cerca de 136 mil afastamentos médicos.

“Os professores estão entre os profissionais que mais se afastam do trabalho por transtornos mentais. O estresse contínuo, o desgaste na relação com alunos e os desafios de manter a atenção em crianças cada vez mais dispersas sobrecarregam os professores, colocando-os em sofrimento frequente, e adoecendo às vezes”, afirma o psiquiatra Daniel Barros, professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP.

Preparação
Em Ituverava, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) mantém diversos cursos de licenciatura, ou seja, que formam professores. “Para melhor preparar os futuros professores para a profissão que escolheram, ministramos aulas sobre legislação a respeito dos direitos dos professores, aulas práticas e discussões a respeito de assuntos em evidência, como a violência contra o professor, por exemplo”, explica o diretor da FFCL, Antônio Luís de Oliveira (“Toca”).

“Além disso, os alunos participam de estágios obrigatórios, em que acompanham as aulas na escolas, vivenciando o dia a dia do professor, algo de extrema importância para que saem da faculdade ainda melhor preparados”, completa o diretor.

Confira as respostas:

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