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06/11/2017

EDIÇÃO - 3255 ENQUETE MORTES EM ESCOLA DE GOIÂNIA REACENDE DEBATE SOBRE BULLYING

A Polícia Militar chega à escola logo após a tragédia

Segundo especialistas, sentimentos provocados pelas piadas de colegas podem ter sido motivação do estudante

O Debate sobre bullying reacendeu com o episódio do Colégio Goyases, em Goiânia, onde um adolescente de 14 anos atirou contra colegas, matando dois e ferindo outros quatro. A investigação ainda está em curso, mas polícia e estudantes apontaram o bullying como um dos fatores que motivaram o crime. Os disparos foram feitos com a arma da mãe do jovem, que é policial militar, assim como o pai.

Alunos da escola particular de ensino básico confirmaram que o autor dos disparos era vítima de piadas maldosas. Segundo um colega do 8º ano do Ensino Fundamental ouvido pela polícia, o adolescente era chamado de “fedorento” e “sujo”, porque não usava desodorante. Ele já teria ameaçado de morte alguns colegas e suas famílias. Apesar disso, não havia qualquer registro oficial no colégio sobre esse tipo de comportamento por parte do estudante.

A tragédia de Goyases gerou reflexões e debates: nas redes sociais, muitos reafirmaram a necessidade de se levar o bullying mais a sério; houve também quem afirmasse que o bullying não foi a causa principal de uma atitude tão drástica.

Problema
O bullying não é um problema que se possa resolver com advertências na secretaria do colégio, pois ele também acontece por olhares e meias palavras. Só uma profunda mudança de comportamento que atinja toda a sociedade poderia surtir os efeitos desejados. Segundo especialistas, sentimentos provocados pelas piadas de colegas podem ter sido a motivação do estudante.

Juliana Gomes, psicóloga que é mãe e tia de alunas que estudavam com o atirador, explica que alguns alunos implicavam com ele por causa de seu cheiro, segundo sua sobrinha, de 13 anos, que é da mesma turma. “Diziam que ele tinha um cheiro forte de cecê. Um colega uma vez levou um desodorante e borrifou nele. É algo pesado”, disse a psicóloga, que é mãe de uma aluna do sexto ano da mesma unidade de ensino.

No entanto, ela conta que sua filha, que fazia aulas de violão com o atirador e estava em uma sala no mesmo andar do ataque, não desconfiava de qualquer sinal de perigo que ele pudesse representar. De acordo com Juliana, não houve nenhuma ação que pudesse indicar que o estudante faria tal ato.

Trauma
De acordo com ela, a sobrinha e filha agora estão muito nervosas com o ocorrido. “Não o achava assustador. Minha filha fez aula de violão com ele e nada indicou que ele pudesse fazer isso. Quando ouviu os tiros, ela não entendeu o que estava acontecendo. Não está acostumada com essa violência”, afirmou a mãe da estudante.


A sobrinha de Juliana, que estava sentada a duas carteiras do adolescente, contou que o primeiro disparo foi dentro da própria mochila dele. “Ele deu tiro para cima e depois mirou em um colega que estava atrás dele que implicava muito por causa do cheiro. Um dos colegas foi atingido na costela e a professora orientou para que todos saíssem e evitassem o tumulto. Na sala da minha filha também houve essa orientação, mas alguns quiseram buscar os irmãos da ala da educação infantil. Quando eu cheguei, estavam todos sentados no muro em volta da escola”, afirmou.

Abalados
As estudantes estavam ainda muito abaladas quando Juliana chegou à escola. “Quando vi minha filha, ela não falou nada. Só chorou desesperadamente. Agora está tentando absorver tudo o que aconteceu. E ainda acabamos de receber um telefonema dizendo que o amigo delas João Vitor morreu”, contou muito emocionada para continuar a entrevista.

O suspeito entrou com a arma, uma pistola .40, na mochila e acabou apreendido. Ele foi encaminhado ao Instituto Médico Legal para exame de corpo delito e seguiu para a Delegacia de Polícia de Apuração de Atos Infracionais (Depai).

O papel do espectador
Apesar da gravidade de casos recentes que podem ter tido o bullying como estopim, especialistas ressaltam que as consequências desse tipo de violência podem ser superadas. Mas os mecanismos que definem se alguém vai passar por cima das agressões, guardar mágoa até a vida adulta ou achar que, mesmo anos depois, precisa "revidar" a violência sofrida ainda são desconhecidos.


Pacientes costumam relatar que o pior aspecto do bullying é se sentir sozinho, ter a percepção de que ninguém se importa com aquela situação. Também por isso especialistas afirmam que a prevenção e o combate a esse tipo de violência passa, não somente por agressor e vítima, mas também pela plateia — os espectadores, a quem no fundo se dirige alguém que comete bullying, em busca de visibilidade e da sensação de poder.

Evitar agressões sistemáticas em ambiente escolar passa também por não achar graça da humilhação alheia, assim negando a principal arma de um agressor.

Columbine e Realengo
No caso de Goiânia, o autor dos disparos revelou ter se inspirado em dois massacres para cometer o crime — um recente, outro que completou 18 anos —, e diz ter planejado por dois meses. O primeiro, em Realengo, na zona oeste do Rio, completou seis anos em abril: um atirador abriu fogo contra crianças e adolescentes da Escola Municipal Tasso da Silveira, matando 12 alunos e deixando outros 13 feridos.

O outro, em Columbine, deixou 12 alunos e um professor mortos nos Estados Unidos em abril de 1999. Ambos foram arquitetados por ex-estudantes das escolas.

Tragédia alerta sobre discussão a respeito do porte de armas
A tragédia em escola de Goiânia ocorre no momento em que a bancada da bala na Câmara pressiona pela votação de projetos que flexibilizam o estatuto do desarmamento. São 135 proposições. A mais avançada, pronta para análise do plenário, amplia a quem tem mais de 21 anos e bons antecedentes o direito de portar até seis armas.

A mudança não aumenta as penas para os donos de armas usadas por terceiros em crimes, como o episódio de Goiânia.

O assunto voltou à discussão após o crime, pois especialistas defendem que a facilidade do acesso à arma pode fazer com que crimes como este aconteçam com ainda mais frequência.

O pai do aluno de 14 anos, que atirou contra colegas prestou depoimento na Delegacia de Polícia de Apuração de Atos Infracionais (Depai) na última segunda-feira, 23 de outubro.

Depoimento
O depoimento durou cerca de 1h30. O pai do aluno estava acompanhado da advogada. No depoimento, ele relatou à polícia que nunca recebeu reclamações do filho sobre comentários ou atitudes ofensivas.

Com relação à arma, o policial militar explicou que ela estava descarregada e em cima do guarda-roupas. Já a munição ficava trancada em uma gaveta em outro quarto. Ele explicou ainda que não sabe como o filho conseguiu a chave para ter acesso às balas.

Enquete
Para saber o que a população pensa a respeito das questões do bullying e do porte de arma, a Tribuna de Ituverava foi às ruas nesta semana.


Confira as respostas:

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