Nossa Capa


Publicidade





Cultura

Voltar | imprimir

16/11/2017

FILME UBERABENSE RECEBE MAIS DE 20 PRÊMIOS INTERNACIONAIS

Um longa-metragem uberabense tem chamado a atenção dos aficionados pela sétima arte, devido às recentes premiações internais obtidas por ele. O filme, intitulado de #ninfabebê, esteve em exibição nos cinemas da Rede Cinemais de Uberaba e agora busca a exibição em cinemas de todo o país.
No filme, duas adolescentes se organizam para passar um final de semana sozinhas em casa, na ausência de seus pais. Utilizando um aplicativo de telefone celular que mescla a gravação de imagens captadas ao vivo com a interação com outros apps, ambas registram todos os momentos desta festa particular, regada à música alta, bebidas e chats na internet.
No decorrer da primeira noite, um estranho junta-se a elas e então tudo se complica terrivelmente.
A protagonista da história é Cibele (Dandara Adrien), que tem o codinome #ninfabebê e é o retrato de uma geração que vive para curtir e ser curtida. Assim como tantos, ela acredita que a felicidade só existe se for compartilhada. Inspirada na mitologia grega, esta ninfa é vigiada por monstros e adorada por deuses, todos muito humanos.

Longa-metragem

“A narrativa do longa-metragem parte do ponto de vista da câmera de vídeo de um telefone celular, pertencente à adolescente/protagonista do filme, onde será exibida a interação desta personagem com diversos aplicativos do aparelho: captura de imagem, entretenimento, redes sociais, entre outros”, explica o diretor Aldo Luís Pedrosa.
“O celular, de certa maneira, se transformou em um importante personagem da trama, constituindo-se também como um item simbólico que possibilitou o surgimento de uma série de questões e críticas relacionadas à contemporaneidade”, diz.

Exibicionismo

Ainda segundo ele, “o foco principal desta produção é apresentar uma crítica ao voyeurismo e ao exibicionismo exacerbados na cultura consumista contemporânea, principalmente dada à onipresença dos dispositivos tecnológicos na paisagem urbana, com destaque aos serviços digitais interativo-sociais que instauram uma realidade que atinge pessoas de várias classes sociais e idades, tanto no Brasil como no mundo todo”.
Este projeto foi aprovado em primeiro lugar na primeira edição do Edital do Fundo Municipal de Cultura promovido pela Fundação Cultural da cidade de Uberaba. Ele foi contemplado com o valor de R$ 19.540,50 para a sua realização e foi todo produzido na cidade de Uberaba.

Ótimos resultados

Mesmo diante do baixo orçamento disponível, o filme conquistou ótimos resultados de público e crítica em suas exibições, foi selecionado e premiado em vários festivais pelo mundo todo e, recentemente, entrou em cartaz pela Rede Cinemais.
Até o momento, já são 22 prêmios internacionais, inclusive o de melhor filme no Transylvania Cinema Awards 2017, concorrendo com filmes de vários países, como Alemanha, China, Estados Unidos e Itália.
Na última quinta-feira, 9 de novembro, o filme foi exibido em Hollywood, cidade considerada referência para o cinema mundial. “A proposta crítica do filme é um dos fatores mais relevantes da produção, possibilitando que os espectadores reflitam sobre uma questão social preocupante e ainda pouco debatida”, afirma o diretor.

"Não é preciso ter grandes recursos
para contar uma história", diz diretor

Em entrevista concedida à Tribuna de Ituverava, o diretor Aldo Luís Pedrosa fala sobre a aceitação do filme, a sua produção e o momento atual do cinema brasileira. Confira os principais trechos:

Aceitação

“Tivemos uma boa bilheteria, maior do que a grande maioria dos filmes em cartaz. 95% das críticas que chegaram até nós (a equipe) foram extremamente positivas. Algumas pessoas não gostaram, pois o filme de fato propõe uma experiência audiovisual diferente da maioria dos filmes convencionais, mas isso faz parte de toda e qualquer recepção de um produto artístico.
Ficamos muito felizes com o significativo resultado de público e crítica, não apenas por apresentar uma produção local no cinema, mas pelo público ter desconstruído o preconceito existente contra produções artísticas regionais (muitos ficavam reticentes em assistir acreditando que seria um filme muito ruim, e saíram surpresos) e também pelo público ter captado a crítica do filme (o super exibicionismo na internet), o que era um dos nossos maiores objetivos”.

Distribuição

“A distribuição comercial é um dos maiores problemas do cinema nacional. Muitos bons filmes ganham prêmios em festivais, inclusive internacionais, mas para serem exibidos nas salas de cinema é outra luta - a maior de todas, na verdade. Ter um filme não é a única coisa necessária para que ele seja exibido. O mercado para o cinema nacional é muito restrito, e já está dominado por algumas grandes distribuidoras nacionais e estrangeiras há tempos.
Então, o procedimento padrão é fazer uma parceria com uma distribuidora para ela lançar o filme nacional e/ou internacionalmente. Estamos há um ano empenhados nessa difícil tarefa e, até então, nenhuma distribuidora se interessou, infelizmente. Ser um filme de baixíssimo orçamento, do interior e estar fora do eixo cultural com certeza é também um grande influenciador na decisão da distribuidora.
O que estamos fazendo então? Entrando por uma porta paralela e ‘chutando’ ela para que nos aceitem. Estamos fazendo uma distribuição independente, juntamente com a Rede Cinemais, que é uma rede de cinema regional. Eles nos deram uma imensa oportunidade, de exibirmos o filme com distribuição própria (nossas produtoras). O filme está registrado na Ancine e contempla todos os quesitos para ir às salas de cinema. Inclusive, existem taxas que as distribuidoras pagam, mas que nós mesmos pagamos para isso. E, agora, temos a oportunidade de ir ao restante da Rede Cinemais. Estamos em negociação”.

Cinema nacional

“O Brasil possui um cinema de extrema qualidade, principalmente conceitual. No entanto, por não existir um mercado consolidado que garanta a subsistência das produtoras de cinema, o que chega às telas em sua maioria são filmes que são simulacros de produções televisivas e, recentemente, de fenômenos da internet. Por isso, esses filmes não se arriscam a propostas que saiam fora das convenções televisivas, para garantir sucesso comercial. Os filmes que se arriscam acabam circulando apenas nos festivais e, no máximo, chegam ao mercado de locação ou à TV.
O apoio do público é essencial neste sentido, assistir a filmes brasileiros não convencionais, na verdade dar uma chance a eles, sem prejulgá-los, pode ser o início de uma guinada histórica”.

Correndo riscos

“Muitas pessoas tentaram me convencer a mudar várias coisas no filme, como o título e também minimizar as cenas mais ousadas. Fui resistente, mas sabia do risco que corríamos. Eu e boa parte da equipe somos idealistas, feliz ou infelizmente.
Então fazer um suspense, através de um mockumentary (já houve tentativas super frustradas de se fazer mockumentaries no Brasil), que se passa em uma só locação e com apenas 9 personagens foi extremamente arriscado. E ficamos felizes e surpresos quando o retorno foi positivo.
Uma das vantagens é que assumimos a precariedade de recursos no próprio formato e na estética do filme (claro que, mesmo assim, tentamos produzi-lo com a melhor qualidade de imagem e som possíveis), mas não tentamos fazer um filme de Hollywood com R$ 19 mil.
Usamos um gênero que é advindo de Hollywood (o thriller). Por que não? Não é preciso ter grandes recursos para contar uma história e transmitir a emoção necessária ao espectador: é preciso muita dedicação, isso sim, e estudar muito como transpor o roteiro para a tela, tentando transmitir a emoção necessárias ao espectador. Acredito que é isso que falta ao cinema nacional: assumir riscos”.







Voltar | Indique para um amigo | imprimir